Por diversas vezes me dei conta do poder que emana da literatura, mas foram duas ocasiões, em especial, que sopraram plumas onde se escondem meus sentimentos mais profundos. A primeira delas foi em 2010, quando me senti profundamente consternada pelo relacionamento estrondoso e lacerante entre Catherine e Heathcliff no alto do Morro dos Ventos Uivantes. Recordo que, ao fechar o livro, lancei um olhar vivo para meu coração comovido por uma história de amor e ódio hiperbólicos. Foi ali que me vi suspensa pela literatura, e fui movida tal qual uma pluma, sob as alças de inigualável narrativa literária. Depois de ter vagado naqueles ventos tempestuosos que a narrativa me arremessou, fui me acomodando novamente à realidade, e levei minha mão direita ao peito. Trouxe à memória o perfil de Emily Brontë (1818-1848) assentada em uma estreita escrivaninha. Elaborei com carinho a imagem dessa notável escritora segurando a pena e a deslizando suave e continuamente na tinta sobre o papel. Quanta dedicação e entrega para meses depois morrer tão precocemente!
A outra ocasião em que me vi atravessada pela arte literária foi em abril de 2020, logo após o decreto da pandemia pela Covid-19. Recordo que finalizei a leitura da obra As Meninas de Lygia Fagundes Telles (1918-2022) em poucos dias. Devorei cada palavra no ímpeto do aprisionamento daquele tempo. As últimas páginas laminaram fino meu coração, numa dor parecida àquela em que a borda do papel corta a pele de um dedo. Fui me deixando doer assim até a última linha. A narrativa esticou tanto meus sentimentos que finalmente os soltou em plumas e mais plumas. Liberei um choro forte, a ponto de assustar meu marido. Ele se aproximou preocupado e fui incapaz de explicar o que havia acontecido. Havia um sufoco tal na garganta pelos fragmentos daqueles penachos, que minha força só alcançou a altura de estender o livro em sua direção, ao que depois pude sentir conforto pela compreensão do seu abraço. Hoje sei descrever o que aconteceu: a história foi tão visceral que terminou traçando um vergão no interior. O interessante é que recentemente li uma matéria com breves descrições da vida de Lygia Fagundes Telles. No artigo da BBC¹ é mencionado que logo após finalizar a escrita de As Meninas, a autora “caiu no choro”. Logo que vi essa revelação acerca do efeito que a própria arte produziu nas emoções de uma das minhas escritoras favoritas, me projetei novamente pairando como uma daquelas plumas soltas pela literatura. Acredito que essa lírica coincidência que a arte colocou no marco do choro por nós duas, certamente nos uniu na haste da mesma pluma pela metafísica do tempo.
No entanto, esses dois exemplos não são únicos e sim os que se elevam num emaranhado de plumas que permanecem levitando em minha memória. A pluma que me faz viajar pelo desconhecido e alcançar o que jamais pensei apalpar, se faz também penacho a tampar pedaços mais frios e solitários na alma, os quais são desconhecidos até senti-los atingidos pela poesia e por diversas manifestações artísticas da palavra. Nesse sentido, penso nas incontáveis leituras que se pretenderam devocionais da Bíblia e acabaram se tornando literárias pela provocação imaginativa da consciência. Quantas passagens das obras de Jane Austen que me fizeram refletir a respeito do egoísmo e distanciamento que se mostram no outro, mas que encontro em mim também. Enfim, posso evocar a literatura como a pluma que voa na memória e me lança naquilo que não conseguiria acessar sem ela. Mas, além disso, pelo poder que dela emana, posso ser alçada ao movimento na autonomia das asas do pássaro, rompendo firme a fragilidade do vento.
Portanto, a literatura é arte que move, fortalece a consciência e traça caminhos para acessar outras vidas, outros espaços, outros tempos. E apesar da liberdade que a literatura evoca, ela não rompe com nós mesmos, mas nos multiplica. Tocamos o que está fora, sem perder a noção do que reside dentro. E se a literatura pode ser comparada à pluma e nos levanta aos golpes de tantos ventos, ela também é capaz de reunir penachos e nos transformar criativamente num pássaro enorme a bater asas contra o que nos aflige, doando plumas para que outros vagueiem em variados ventos de imaginação. Ou seja, a literatura é pluma para nos fazer flutuar infinitamente na arte, mas também tem poder de gerar peso sublime à criação, a dinamizar celeremente nossas asas para nos pousar no cume da criatividade. Sendo assim, ouso finalizar essa reflexão dialogando com a imagem desenhada em palavras pelo grande poeta e crítico literário, Paul Valéry (1871-1945): “é preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma²”. Creio que nessa associação aqui desenvolvida, essa belíssima frase poderia ser relida da seguinte forma: “a literatura deve nos suspender à leveza da pluma para enfim nos transformar no voo criativo do pássaro”.
¹ Lygia Fagundes Telles: um século de histórias da dama da literatura brasileira. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cg626dr67p9o
² CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio. Tradução de Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
