O império da luz

Sempre apreciei o cinema. Lembro-me de constantemente juntar moedas para conseguir comprar ingressos. Eu guardava todo o trocado do pão e, depois de tirar a parte que cabia aos doces, o restante ia direto para uma caixa de sapatos que, em minha imaginação, recebia com alegria aquelas moedinhas e se satisfazia quando acumulava o suficiente para que eu pudesse comprar o meu ingresso e convencer minha irmã de levar-me.

Naquelas salas, naquelas minúsculas salas, eu me sentava no meio de um monte de gente que não me conhecia, que nunca  havia me visto e que jamais saberiam que eu estava ali. Nessas circunstâncias, eu não sentia medo ou vergonha. Aquele facho de luz era o meu escape. 

Era uma sala pequena, muito pequena, mas eu me sentia à vontade naquele ambiente. Ninguém sabia quem estava ali, nós só precisávamos ver a luz. É a faísca entre os carbonos que gera essa luz, e nada, nada em nossa vida acontece sem luz. 

É fantástico, afinal, são fotos estáticas com escuridão entre elas. Ocorre que, existe uma falha em nosso nervo óptico que, ao rodar-se um filme a 24 quadros por segundo, a gente não nota a escuridão ao redor, a gente só vê a luz. Se chama fenômeno Phi – ver imagens estáticas em sequência rápida – e esse fenômeno cria a ilusão de movimento, cria uma ilusão de vida.

“Eu só quero ver um filme! Qualquer filme. Você escolhe!” – eu dizia segurando uma caixa de sapatos com um monte de moedas.

A vida é um estado de espírito! 

E, anos depois, eu ainda aprecio o cinema. Aquela minúscula sala, aquele facho de luz, eu ainda me sinto muito à vontade ali. É meu escape e é fantástico!

De uma forma que não sei explicar com detalhes, a imagem daquele garotinho medroso, inseguro, solitário, um garotinho que não tinha e não sabia fazer amigos, observando o facho de luz que, em sua perspectiva, dissipava a escuridão ao redor; essa cena, essa específica cena que sobrevive em minha memória, me aponta algumas verdades. Uma delas é a de que, por vezes, quando experimento a solidão, o medo, a insegurança, esqueço-me de concentrar-me naquele facho de luz. Ali, olhando para a luz, eu tenho vida. A luz basta.

Para aquele garoto que sentia-se encalistrado diante da vida, a tela grande do cinema o permitia abranger os mais vastos horizontes: montanhas rochosas, florestas equatoriais, ilhas onde se vive coroado de flores. Quando possível, via dois ou três filmes no mesmo dia e em pensamento continuava a viver naquelas paisagens e a respirar aquelas cores. No fundo, imaginava-se destinado a ficar sozinho. Felizmente, aquele garoto estava errado. 

A luz dissipa a escuridão. Seu reino é um reino de amigos. Um império das luzes onde tudo se faz novo. Neste império, os solitários e medrosos do passado que morreu, agora relaxam e se espalham em vigor verdejante. 

Como algo quase dito, as árvores florescem. Os brotos, relaxados, se espalham; o verde deles é uma espécie de luto. 

Renascem ou é a gente que envelhece? Não, não renascem, eles também morrem. O truque anual típico da natureza está nos anéis da lenha. A lenha nunca esquece de nada. Ainda assim, os castelos inquietos vão se debulhar em vigor verdejante todo maio. Quando isso acontece, parece dizer: “Ano passado morreu, não consegue ver?” Comece outra vez, outra vez, outra vez… ²

Bem-vindo ao Palimpto.  Um movimento dedicado à Literatura. Um império das luzes. Um reino de amigos. 

¹ Texto Inspirado na obra cinematográfica: O império da Luz (2022), roteiro e direção de Sam Mendes; com  Olivia Colman, Micheal Ward, Colin Firth.

² Trecho adaptado do poema: As árvores de Philip Larkin.