De onde vem o açúcar?

A cidade era pequena, mas aos olhos da menina tudo parecia embrulhado em superlativos. Entre o relevo montanhoso, na região do Vale do Rio Doce, escondia-se um estreito povoado. Ali, Sabrina crescera em uma casa de quintal quase rural, que abrigava meia dúzia de árvores frutíferas, algumas galinhas e um cachorro. A família de Sabrina formara-se na pequena cidade, mas o pai e a mãe carregavam consigo a herança da infância no campo. Sabrina tinha dois irmãos mais velhos, quando nasceu, Sara tinha oito anos e Samuel, quatro. Bina, como era carinhosamente chamada, por ser a menor da casa, sempre tinha a sensação de que tudo à sua volta se agigantava. Mas à medida que crescia, as proporções externas se atualizavam.


Aos seis anos, Bina já havia desenvolvido muitas habilidades. Todas as manhãs ajudava o irmão a alimentar os animais e depois ficava rodeando a mãe na cozinha. Buscava lenha no quintal, ajudava a atiçar o fogo e varria o chão. Como tudo parecia extrapolar o alcance de seus braços, carregava consigo um banquinho por toda parte. No equilíbrio das pernas de madeira, tentava mexer a comida nas panelas de ferro, lavava alguns utensílios na pia e, no armário suspenso, encontrava os ingredientes que a mãe solicitava.


O armário antigo tinha cheiro de própolis, ao perceber esse odor, lembrou-se do tio que crestava abelhas, e a mente percorreu jardins e praças em busca do pólen das flores. Tinha um instinto de querer de tudo encontrar a matéria-prima.


—Sabrina, o fubá, por favor!
—Aqui, mãe —disse, entregando a lata com um esforço de equilibrista.
—Obrigada!


O pedido da mãe interrompeu o pensamento, mas durante todo o dia não perderia a oportunidade de observar as flores que lhe aparecessem no caminho.


Às tardes, depois do almoço, na companhia do irmão, caminhava até a escola. A essa altura, Bina já sabia ler e começava a pegar gosto pelas letras. Depois da aula, costumava brincar com os irmãos até a mãe chamar para o jantar, que emendava com o banho e com o sono, sempre precedido de uma prece familiar. Nessa rotina, que se repetia com algumas variações, os finais de tarde e a noite eram os únicos períodos em que os três irmãos podiam estar juntos, já que Sara estudava de manhã. A irmã mais velha, que tinha acabado de formar no ensino fundamental, gostava de testar as habilidades de Bina. Pedia-lhe para repetir palavras compridas, trava-línguas e fazia perguntas diversas sobre nomes de árvores, bichos e alimentos para ver o que a menina já sabia e divertir-se com o pensamento ainda pouco adestrado.


Certa vez, enquanto a mãe preparava o jantar, Sara perguntou a Bina se ela sabia de onde vem o sal. A menina lembrou-se da viagem que fizeram ao litoral, rememorou o gosto salobro da água e respondeu sem pestanejar: “do mar!”. A irmã, não se dando por satisfeita, emendou outra pergunta: “E de onde vem o açúcar?” A ordem das perguntas pareceu induzi-la a uma única resposta possível, então respondeu: “do Rio Doce”. Os irmãos caíram na gargalhada, a menina não entendeu. Só depois conseguiram explicar que, na verdade, o açúcar vinha da cana. Bina ficou surpresa com essa a revelação, conhecia alguns derivados da cana como o melado e a rapadura, mas a cor escura que exibem não lhe permitiu a associação com os grãozinhos quase translúcidos do açúcar.


Apesar do esforço empregado na analogia, Bina não conseguia pensar nas implicações de sua resposta. Ainda não poderia prever o desequilíbrio ecológico que um curso d’água açucarado poderia causar, não imaginava ter trocado um rio de peixes por um rio margeado por formigas. Também não poderia prever que, anos mais tarde, o Rio Doce seria assolado pelos rejeitos do minério amargo, o que colocaria em risco o futuro de sua fantástica fábrica de açúcar. Ainda bem que a sabedoria divina atribuiu aos frutos da terra e não às águas a propriedade da doçura.


De relance, vez ou outra, na janela entre as tarefas, a mãe acompanhava algumas dessas conversas que soavam cômicas aos ouvidos experientes. Percebendo o instinto curioso que ganhava forma na filha, achou por bem instruí-la com um pouco de sabedoria popular. Na cozinha, enquanto preparava o almoço, fez uma pergunta: “Bina, você sabe a diferença entre o inteligente e o sábio?” A menina, que ainda tateava em sua construção vocabular recém-letrada, respondeu, como que iluminada, a resposta mais sábia que poderia: “não sei, mãe”. Então, a mãe transmitiu-lhe as definições que aprendera: “a diferença é que a pessoa inteligente aprende com os próprios erros e a pessoa sábia aprende com os erros dos outros.” E arrematou: “o que você prefere ser?” Bina respondeu de pronto: “eu prefiro aprender com os erros dos outros”. A educação rígida já a havia ensinado que o erro podia custar caro, por isso a resposta foi tão rápida.


O ensino da mãe teve um efeito formativo tão grande em Bina que só muito mais tarde ela conseguiria repensar as definições absorvidas. Naquele momento, com a força da inocência, que a vida ainda iria desmanchar e depois refazer, apenas assumiu a sentença como verdadeira. E desejou do fundo do coração aprender por observação e, mais do que isso, aprender a não errar. Nessa fase da vida, em que o conhecimento começava a chegar por meio das palavras escritas, Bina entendeu que a leitura poderia ser uma forma segura de aprendizagem. Por meio da coleção de histórias alheias, fictas ou reais, apreenderia o erro para de pronto rechaçá-lo. Assim, foi moldando seus passos na vida, em torno de uma previsibilidade que fabricava para evitar tropeços. Os cálculos sociais eram assertivos e brotavam com uma facilidade quase inconsciente. Aos poucos, internalizou um comportamento que agradava a todos e, com isso, evitava ralhos e percebia-se no caminho certo.


Na leitura, Bina encontrava vidas possíveis e impossíveis, mas em momento algum desejava uma vida que extrapolasse a moldura que fabricara. Mais tarde, já crescida, terminando a educação básica, desejou seguir os estudos. Pensou que, assim, estaria mais perto de construir sua torre de sabedoria. Os pais, sempre prontos a apoiá-la, incentivaram-na a mudar para a capital do Estado para ingressar na educação superior. Aos prantos, Bina despediu-se da família, dos amigos, da casa e da cidade que lhe formaram.


Na capital, Sabrina queria cursar todos os cursos possíveis, mas contentou-se com a possibilidade de cursar Direito e fazer matérias avulsas de outros cursos que também a interessavam, como Filosofia e História. Passava todos os turnos do dia na faculdade e não se cansava. Aprendeu novas leituras, novas pessoas, novas formas de lê o mundo, a sociedade, a política. A fome teórica tornou-a especialista na crítica da realidade, mas não ousava o caminho inverso, mesmo quando lhe assaltavam as aporias.


Periodicamente, visitava a cidade natal e reaprendia a vida laboral que lhe formara. A cada retorno, a cidade diminuía. Por um momento, sentia colidirem dentro de si a pessoa simples que abraçava a vida prática e a voz intelectual que começava a falar em sua mente como aquele mundo parecia deslocado. De repente, as pessoas que a viram crescer tinham opiniões tão descabidas sobre a ciência, a sociedade, a política e a vida, que lhe pareceu absurdo tentar entendê-las. A algumas pessoas expunha incisivamente suas ideias iluminadas, às vezes em tom belicoso, a outras, apenas ignorava.


Depois de cinco anos de estudo, Sabrina via-se pronta para julgar o mundo. Certamente, o conhecimento adquirido com tanto afinco tornara-a capaz de analisar questões e propor soluções eficientes. Mas sem saber bem o porquê, a despeito da habilidade analítica adquirida, a vida parecia-lhe mais pesada. Pensava que quanto mais soubesse, menores seriam as chances de erros. Mas não havia calculado que a fixação por prever erros e evitá-los poderia viciar o próprio olhar em padrões negativos. Os anos investidos no garimpo acadêmico garantiram-lhe acesso a conhecimentos vários e a belas teorias, mas os limos da mineração começavam a escapar.


O incômodo, agora consigo mesma e não só com o mundo, pesou em seus ombros, parecia carregar as cargas de todas as vidas que lera. Nessa efervescência de percepções até então desconhecidas, lembrou-se do início de sua inocente busca pela sabedoria, só queria aprender com os erros dos outros. Mas a essa altura, as vacilações das experiências alheias traduziram-se em suprimento para a vaidade e a aprendizagem ficou esquecida. Sentiu saudades de casa, quis voltar. Todos os esforços empregados em estudos infinitos garantiram-lhe uma derrota inesperada. Encarar a própria falência doeu.


Por força do hábito, buscou consolo em um livro, mas dessa vez, deparou-se com uma frase que lhe cortou profundamente. Uma voz do oriente dissera: “na busca pelo conhecimento, a cada dia se acrescenta uma coisa, na busca pela sabedoria, a cada dia se diminui uma coisa.” Percebeu, então, que havia confundido conhecimento com sabedoria, e que errara o caminho que pretendia trilhar.


Viu desmoronar cada um dos tijolos de sua torre venerada. Sentiu tristeza e decepção, mas percebeu que era tempo de subtrações. Outras vozes ecoaram em sua mente, reforçando o sentido dos cortes necessários:

“Quem pensa conhecer, não conhece como deveria”, “toda sabedoria humana não vale um par de botas curtas”.

Na busca ilusória por uma caminhada inerrante, acumulou conhecimentos diversos, mas só agora entendia que, ironicamente, perdera de vista o conhecimento primordial exigido pela sabedoria: o conhecimento da própria ignorância. Em tempos antigos, alguém já disse:

“nenhum homem pode ser sábio, o máximo que pode ser é amante da sabedoria”.

 

Bina percebeu, então, que ambicionava o impossível, não errar e ser sábia não cabiam em sua humanidade. A sabedoria não era um título ou um destino que se alcança, mas um caminho estreito tão longo quanto a vida. Percebeu que não buscara conhecer por amor à sabedoria, mas por medo de errar. Aceitou suas fraquezas humanas e começou de novo a caminhada para aprender, não mais com medo da errância, mas com ânsia de redescobrir a doçura que se perdera em algum lugar.