As leituras da quadrilha

Raimundo amava Maria. Maria era obstinada, tentava coisas novas, buscava o melhor em cada situação. Ela via cada dia como uma nova oportunidade, era assim desde criancinha. Para Raimundo, cada novo dia era, na verdade, menos um nesse mundo. Era o que ele constatava a cada manhã quando lia as manchetes do jornal.

Maria amava Joaquim. Misterioso e sempre com dois livros debaixo do braço, Joaquim era aquele rapaz que parecia saber mais do que todas as pessoas no recinto. Foi ele que a inspirou a buscar por livros de mistério, com homens perspicazes, e assim acabou ficando com uma coleção cheia de Holmes e Poirot.

Joaquim amava Lili. Seu coração chegava a doer ao pensar que Lili talvez nunca soubesse disso. Mas doía ainda mais ao pensar na possível rejeição. Uma mulher tão certa de si não poderia amar alguém que ficava paralisado frente à escolha entre começar mais um Tchekhov ou um Tolstói, Joaquim pensava.

Lili não amava ninguém. Era prática até o último fio de cabelo, que tinha o mesmo corte desde a infância. Seu guarda-roupa só não era como os de personagem de desenho porque havia variedade de cores: uma para cada dia da semana. Sabia de cor e salteado trechos inteiros do Tratado Ético da Contabilidade.

J. Pinto Fernandes achou o máximo quando, durante o coffee break da Conferência Nacional dos Contadores, Lili citou a Ordenança IV para um sujeito que falava, com orgulho, que fechava os balanços fiscais sempre em cima da hora. Lili não tinha medo do que pensariam dela, fazia o que era certo e pronto. E Lili achou que o certo era casar-se com J., um homem que a admirava, e tornar-se Lili Fernandes.

Joaquim, sabendo que Lili agora era Lili Fernandes, pensou que esse destino lhe caía bem. Ver a mulher que amava casando-se sem que nunca soubesse de seus sentimentos. Na noite em que a notícia chegou, tomou doses cavalares de seu remédio, acompanhado de uma garrafa de vodka. Deitou-se para ler e não chegou nem ao fim do primeiro capítulo de Anna Kariênina. Não acordou no dia seguinte.

Maria não fazia ideia se Joaquim estava tentando poupá-la do sofrimento de uma rejeição ao não dizer a ela que o sentimento não era recíproco, ou o quê. Só sabia que, depois de três tentativas de abordá-lo sobre o assunto, sem sucesso, decidiu dar uma chance a Raimundo. Mas, depois de uma reviravolta digna de seus livros de Agatha Christie, ficou pra tia.

Raimundo morreu de desastre. Simples assim. Dias antes de seu casamento com Maria. No título da matéria que noticiava sua partida, podia-se ler “Acidente fatal deixa rodovia interditada quase 24 horas”.

Teresa foi se confessar. Não era possível não conseguir completar uma única leitura bíblica por conta de um homem. O padre recomendou algumas dezenas de Pai Nossos e, lá pela metade deles, ela sentiu que o que deveria fazer era seguir com muito mais Pai Nossos, Gênesis e Salmos, e muito menos Raimundo. Foi para o convento.

João não se imaginava com mais ninguém a não ser Teresa. Se aquele futuro tão sonhado não seria com ela, também não seria com outra. Mas seu romantismo não precisava ser uma tragédia shakespeariana. Fez suas malas, com alguns exemplares de Machado, e foi para os Estados Unidos.