“Esta é uma história sobre pessoas em busca de sua outra metade. “E você deve saber logo de início: não é uma história de amor.”
É mais ou menos assim que começa o filme “500 Dias com Ela” e é assim que começo este texto. O filme é sobre um rapaz que se apaixona por uma moça… ideal. E de tanto amar a sua própria ideia, abraçou o vazio — encontrou a solidão. Metáfora? “Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência”, alerta o diretor. Afinal, quem já não ficou assim, obcecado por uma projeção? Talvez seja coisa de ficção. Ou não?
Em uma cena do filme, curiosamente, a tal moça diz ter lido “O Retrato de Dorian Gray”. Assim como o protagonista do filme, Dorian também se vê preso em uma busca insaciável, mas pelo seu próprio reflexo. Ele é descrito como um moço belo que, num estalar de consciência, percebe-se bonito e jovem com a ajuda de um pintor e de sua pintura (e de Lord Henry). Ele é capaz de conseguir qualquer coisa com seu ar juvenil e com sua boa aparência. Seu desejo e sua obsessão levam-no a “vender a alma”, por assim dizer. Apenas a pintura de seu rosto sofreria as marcas de sua maldade; ele, por sua vez, permaneceria com toda vitalidade da beleza e do vigor jovial, não importando o que acontecesse. Era amor pelo que é belo e apreciável? A aversão à fugacidade da beleza física e a obsessão por manter, a qualquer custo, intacta a sua aparência fazem com que aquele rapaz outrora tímido crescesse em malícia a cada devoção a um novo prazer. Ele quis fugir de sua própria consciência enquanto amava em demasia a si mesmo e suas vontades, mas nem o quadro nem a sua alma sangrenta e cruel o deixavam mentir.
Quão monstruosos podem os nossos amores desordenados nos tornar? “Agora é tarde demais”, constata Dorian quando Hallward, o pintor do quadro, desesperado com o que acontecera com a sua pintura e com o objeto de seu deleite — o Dorian Gray —, convida-o a se lembrar da oração do Pai Nosso e do perdão de Deus. Mas não foi arrependimento que o encontrara, foi o ódio que se alastrou ainda mais em seu ser. Ele se tornava cada vez menos humano: destruindo a si e tantos outros que estavam à sua volta. O poder persuasivo de sua beleza tornou-se poder de destruição.
Por que, ao buscarmos desesperadamente amor e reconhecimento, nos tornamos tão mesquinhos? Por que, quando queremos a todo custo amar a nós mesmos e aos nossos desejos, ganhamos, além de nossos desejos, um brinde com a obscuridade de nossos próprios intentos? Qual a razão desse ímpeto violento de passar por cima dos outros em busca de sucesso? Por que essa vontade inquietante de fazer grande o nosso nome enquanto construímos grandes torres em nossos corações? Por que queremos sempre provar que, lá no fundo, não somos meros vagabundos? Como Timothy Keller cita, lembrando a fala do campeão Apollo Creed no filme “Rocky”.
Lembro-me de Eustáquio, de Crônicas de Nárnia, um menino que amava o poder, provocava as pessoas, fofocava, torturava animais e bajulava adultos. Certa noite, ele encontrou uma pilha de tesouros dentro de uma caverna. Empolgado, começou a imaginar gananciosamente a vida que teria com aquele tesouro. Mas, para a sua surpresa, quando acordou, havia se transformado em um dragão. Ao pensar como um dragão, se transformou em um. Agora ele era muito poderoso, mas também medonho e solitário. Ele começava a querer ser menino de novo. Certa noite, o leão, Aslam, o desafia a tirar suas escamas e arrancar a pele de dragão. Mas ele tirava uma camada e tinha outra embaixo, tentava de novo e tinha mais. Talvez, tal como Dorian Gray, ele pensasse que era tarde demais.
Eu me lembro de mim e do meu pensamento cheio de preocupações com sucesso, aceitação, validação e tantas coisas mais que me pedem a alma. Eu me lembro do coração atrofiado e devoto aos mais diversos (des)amores. Eu me lembro dos momentos em que, na violência do amor por mim e pelas minhas idealizações, eu deixei para trás algumas coisas. Aquelas coisas virtuosas, como a paciência, a compaixão e o perdão. Será que nunca fizemos a pergunta de Jeremias (Jr 8.22) ao olhar o nosso próprio desespero? Há remédio para essa dor? Não há nenhum médico aqui? Não há cura para essas feridas dos amores que abraçamos e do desamor que nos apossamos? Ensimesmada, subo chateada à superfície das águas nas quais me afoguei para respirar. É quando me lembro da continuação da história de Eustáquio:
“Pensava: “Deus do céu! Quantas peles terei de despir?” Como estava louco para molhar a pata, esfreguei-me pela terceira vez e tirei uma terceira pele. Mas ao olhar-me na água vi que estava na mesma. Então o leão disse (mas não sei se falou): “Eu tiro a sua pele”. Tinha muito medo daquelas garras, mas, ao mesmo tempo, estava louco para ver-me livre daquilo. Por isso me deitei de costas e deixei que ele tirasse a minha pele. A primeira unhada que me deu foi tão funda que julguei ter me atingido o coração. E quando começou a tirar-me a pele senti a pior dor da minha vida. A única coisa que me fazia aguentar era o prazer de sentir que me tirava a pele. É como quem tira um espinho de um lugar dolorido. Dói pra valer, mas é bom ver o espinho sair. […] Bem, tirou-me toda a pele animal – do modo que eu pensava que havia feito nas outras três vezes, só que não tinha doído – e lá estava ela sobre a grama: só que muito mais grossa, escura e aparentando ter muito mais nódulos do que as outras. E ali estava eu, liso e polido como um graveto sem casca, e menor do que antes […] Eu havia voltado a ser menino outra vez”.
Dói muito quando se toca em assuntos do coração. Mas é preciso ir lá, bem lá no fundo. E nós não conseguimos sozinhos. Desafiada como fora Eustáquio, desafogada do mar das idealizações e dos desejos obsessivos, eu começo a olhar de novo para o céu e para a terra. Começo a ver o mundo ao meu redor e ouço uma voz que diz: “O que você vê?”. Vejo pessoas doentes, pessoas apressadas, gente que foi levada pela enchente, que agoniza de dor pelos entes que se foram. Eu vejo ira, vejo medo. Vejo a mãe que chora pelo seu filho que foi preso. Eu vejo a confusão das ruas, o brilho do LED que anuncia a próxima coisa para amar. Eu ouço passos bruscos, ouço o som da TV que noticia o tiro que houve logo ali, é a ambulância, é a polícia. Eu sinto o cheiro de fumaça, o denso ar da cidade. Tem gente que anda cambaleando como filhos da noite, sem conseguir olhar nos olhos, estão turvos demais para voltar a enxergar.
Mas em meio a todo desamor que me assola, vejo também a misericórdia me curando, me tirando da tontura do autocentramento. Eu vejo o Filho padecendo de amor, adentrando na mais densa escuridão de trevas e dor para que inimigos se tornassem amigos. Para que pessoas como Tom, Summer, Dorian, Eustáquio e eu pudéssemos ter esperança outra vez. Eu vejo o amor vivo e brilhando. Eu vejo o amor me acolhendo e me oferecendo comida. Estou de volta à realidade. A casca grossa da insensatez já não me cabe mais. O quadro sombrio da alma é refeito. Vejo esta obra de restauração e ouço o amor me chamando: “Vai e ama!”.
[E, no final, esta é, sim, uma história de amor, de amores desordenados e do amor que restaura]
