O Livro todo de Costas

É curioso como nem sempre vemos aquilo que queremos ver. Há, às vezes, uma aparente desconexão entre nossa idealização da realidade e nossa visão dela. Penso no caso de Moisés que pediu para ver a face de Deus e teve as costas divina como resposta. Nossa visão é curiosa. Ela observa atentamente os detalhes, mas com facilidade se esquece do quadro maior que abriga esses mesmos detalhes. Moisés desejou o rosto de Deus e teve a divindade de costas para ele. A boa literatura, com incômoda constância, faz o mesmo. Somos expostos a uma realidade e, muitas vezes, vivemos noutra completamente oposta. O incômodo, no entanto, não está na divergência de realidades, mas de olhares. Como Moisés, ansiamos por ver algo e acabamos por ver outra coisa, coisa essa que diverge por completo daquela ânsia primordial.

Muito se fala de livros que mudaram a vida de fulano ou ciclano. Nunca tive a oportunidade de ler um livro que mudasse minha vida. Os melhores livros que li mudaram apenas minha visão. Fizeram-me ver as costas divina e minha face brilhou. Durante a leitura, nossos olhares se prendem às folhas brancas manchadas pelo escuro das letras. Nossa mente, no entanto, não fica presa naquilo que os olhos veem, mas no que as páginas sugerem.

Novamente, a diferença inconveniente entre o que vemos e o que desejamos ver. Me faz lembrar de Santo Agostinho. “Toma e lê, toma e lê”. Foi com o intuito de ler, mas tornou-se livro e foi lido pela Palavra. O mesmo anticlímax: desejava ver algo, mas viu as costas divina e sua face brilhou. Essa divergência entre desejo e realidade, aparentemente, está sempre presente no momento em que nossos olhares começam a se adaptar com as coisas concretas. É o exato instante em que, ao tirarmos os olhos dos livros, nossa visão passa a se adaptar à luz da realidade.

Novamente, a diferença inconveniente entre o que vemos e o que desejamos ver. Me faz lembrar de Santo Agostinho. “Toma e lê, toma e lê”. Foi com o intuito de ler, mas tornou-se livro e foi lido pela Palavra. O mesmo anticlímax: desejava ver algo, mas viu as costas divina e sua face brilhou. Essa divergência entre desejo e realidade, aparentemente, está sempre presente no momento em que nossos olhares começam a se adaptar com as coisas concretas. É o exato instante em que, ao tirarmos os olhos dos livros, nossa visão passa a se adaptar à luz da realidade.

A leitura é um processo de preparo que nos auxilia a encarar essa luz da realidade. O resultado aparece quando olhamos às costas de Deus, não sua face. Meu querido Chesterton disse certa vez que é preciso que tenhamos os pés fixos ao chão como raízes profundas e a cabeça leve como um balão. O momento da leitura infla o balão em nossas cabeças e, quando olhamos para fora do livro, nossas raízes crescem. Crescem justamente porque não vemos aquilo que acabamos de ler, apenas os resultados da leitura em nós. A imagem que Chesterton sugere das raízes de uma árvore é, para mim, perfeita. Raízes são profundas, mas crescem em lentidão. São sustento para o visível, mas quase completamente invisíveis. A demora para se estabelecer com profundidade se dá também na leitura, contudo, não no momento exato da leitura, mas no de encararmos as costas de Deus. É, por assim dizer, apenas diante do fim que verdadeiramente nos deparamos com o começo. Quando viramos a última página do livro, passamos a ser lidos por ele. É apenas naquele curioso espaço de tempo em que nossos olhos se desviam da contracapa se fechando diante de nós e passamos a observar o mundo, agora totalmente contaminados pelos olhos do autor, que a leitura, de fato, tem seu início.

Leitura é memória ativa que envelhece e, dependendo de sua qualidade, melhora ou piora. É um vinho que envelhece apenas depois de consumido. É raiz que cresce apenas quando a árvore já é idosa. A boa literatura é aquela que nos faz olhar, não à face, mas para as costas de Deus. Ela nos auxilia a ver o que não veríamos sem ela. A boa literatura nos ajuda a ver o que sempre esteve lá, mas agora vemos pelo olhar do outro. É ter a possibilidade de ser mil homens sem deixar de ser quem somos. É a capacidade de ver por muitos olhos, mesmo enxergando apenas pelos mesmos olhos que antes ansiavam o rosto divino. Interessante é que, com a boa literatura, acabamos descobrindo que embora quiséssemos olhar Deus nos olhos e talvez até mesmo questioná-lo, era suas costas que precisávamos ver.

É curioso que nem sempre vemos aquilo que queremos ver. Às vezes pedimos o rosto de Deus e nos apresentam suas costas. Outras vezes queremos ver poesia, mas vemos apenas as pedras. Outras vezes ainda procuramos nos encontrar nas palavras de alguns autores, mas é apenas nas bordas de suas páginas que conseguimos nos enxergar. Os bons livros subvertem nossas vontades e, ao final, com as costas do livro virada para nós, nosso rosto começa a brilhar.

Fecho um livro, vejo o mundo.